Há profissionais que exercem a medicina dentro dos consultórios. E há os que decidem que a medicina precisa ir além das paredes, até onde o sistema de saúde não chega. O Dr. Yuri Silva Portela pertence ao segundo grupo. Fundador do Humaniza Sertão, ele construiu em três anos um projeto que reúne mais de 20 voluntários de diferentes áreas e carrega saúde, escuta e dignidade para comunidades carentes do sertão de Quixadá, no Ceará.
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O que leva um profissional de saúde a fundar um projeto social?
A maioria dos projetos sociais nasce de uma percepção concreta de injustiça, de um momento em que a realidade se torna impossível de ignorar. Para o Dr. Yuri Silva Portela, a iniquidade no acesso à saúde no interior do semiárido não era abstração teórica. Era visível na ausência de serviços básicos, nas histórias de pacientes que percorriam longas distâncias para consultas simples, nas condições de vida de famílias que nunca haviam tido acesso a um dentista, a um psicólogo ou a uma orientação jurídica.
A decisão de transformar essa percepção em ação coletiva estruturada exige mais do que boa vontade. Exige capacidade organizacional, liderança, habilidade de engajar outros profissionais e disposição para construir algo que não oferece retorno financeiro imediato. A dimensão empreendedora de um projeto social é frequentemente subestimada, mas é precisamente ela que determina se uma ideia vai perdurar ou se vai se esgotar nas primeiras dificuldades.
O fato de o projeto completar três anos sem vínculos político-partidários e sem depender de uma única fonte de sustentação revela que sua base foi construída sobre princípios sólidos. A independência ideológica é, nesse contexto, uma escolha estratégica: ela garante que o foco permaneça nas comunidades atendidas, sem desvios causados por agendas externas, comenta Yuri Silva Portela.
Como se constrói e sustenta uma equipe voluntária de mais de 20 profissionais?
Engajar voluntários qualificados não é tarefa simples. Fisioterapeutas, dentistas, psicólogos, neuropsicopedagogos, advogados, nutricionistas e barbeiros têm agendas profissionais exigentes e doam um dia inteiro por mês para uma causa que não os remunera financeiramente. O que os mantém envolvidos é uma combinação de valores compartilhados, sentido de pertencimento a algo maior e a satisfação concreta de ver o impacto do próprio trabalho.

A liderança do Dr. Yuri Silva Portela funciona como elemento aglutinador. Um coordenador de projeto social precisa equilibrar múltiplos papéis: articulador logístico, motivador de equipe, porta-voz público e gestor de conflitos inevitáveis em qualquer grupo humano. A capacidade de manter a coesão de um time multidisciplinar heterogêneo ao longo de três anos, sem remuneração e em condições desafiadoras, é por si só uma competência rara.
Qual é a visão de saúde que sustenta o Humaniza Sertão?
O nome do projeto não é escolha casual. Humanizar o sertão significa reconhecer a humanidade de quem vive em suas comunidades mais esquecidas, de quem acessa o mínimo com o máximo de esforço, de quem sobrevive em silêncio às margens de políticas que prometem mais do que entregam. Essa humanização se materializa no gesto concreto de ir até essas pessoas, de levar o cuidado ao invés de esperar que elas o encontrem.
A abordagem multidisciplinar reflete a compreensão de que as vulnerabilidades das comunidades atendidas não se organizam por especialidades médicas, expressa Yuri Silva Portela. Uma família que não tem documentos não pode acessar benefícios de saúde. Uma criança com dificuldade de aprendizagem não identificada vai acumular problemas que se manifestarão na vida adulta. Um idoso sem acesso à fisioterapia perde independência e passa a depender de cuidados cada vez mais custosos. Resolver um problema sem enxergar os outros ao redor é tratar sintomas sem tocar nas causas.
A história do Dr. Yuri Silva Portela e do projeto que fundou é a prova de que a medicina que transforma não é sempre praticada em hospitais de ponta. Às vezes, é praticada numa estrada de terra, com equipamentos transportados em bagageiro de carro, diante de pessoas que esperaram anos por um cuidado que finalmente chegou.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
